Ponta de Lança

UMA PONTA DE LANÇA DA IDADE DO BRONZE FINAL

GRUTA DA NASCENTE DO ALGARINHO / SISTEMA DO DUEÇA CIES – GPS – NEC – SAGA

Miguel Pessoa | Arqueólogo e museólogo | Museu de Conímbriga / Museu da Villa Romana do Rabaçal

INTRODUÇÃO

Figura 1: Entrada Nascente Algarinho
Figura 1: Entrada Nascente Algarinho

  O achado ocasional desta ponta de lança foi feito no decurso de uma visita de rotina, em Abril de 2001, programada pelo colectivo de grupos de espeleologia CIES-GPS-NEC-SAGA, por uma equipa constituída por Sérgio Medeiros, Hugo Mendes, Nuno Santos e Hernâni Dias. A missão desta descida à cavidade tinha por fim verificar o estado de conservação da mesma, dado encontrarem-se no seu interior alguns efeitos de poluição, e proceder à medição de caudais, a fim de melhor ser planeado o levantamento topográfico das diversas galerias em ligação com o vasto sistema hidrográfico do Rio Dueça.

Localização e condições do achado

Figura 2: Local do achado
Figura 2: Local do achado

A peça apresentava, no momento da recolha, uma fina camada de argila. O interior do alvado estava preenchido, na totalidade, com entulho muito concrecionado, composto por cascalho de grãos rolados pela acção da corrente de águas e areias. Não foram encontrados restos do cabo de madeira da lança nem do conto metálico de protecção, por vezes presente na sua parte anterior. A peça foi depois limpa mecanicamente, tendo sido preservada a patina de carbonato de cobre (CuCO3) (Figura 4). Procedeu-se de seguida à sua leitura e respectivo desenho (Figura 5).

Figura 3: Nascente do Algarinho em descarga, com cerca de 1 m3/s (Fevereiro de 2001).

Descrição

A lança apresenta folha estreita e longa, com nervura longitudinal central única e larga, e bordos laterais convexos, ligeiramente rectilíneos, aproximadamente rectilíneos na sua parte central, e ponta perfurante. O alvado é cónico e longo, apresentando dois orifícios circulares, diametralmente opostos, que terão servido para o reforço da fixação do cabo. A peça mostra-se direita e sem desgaste o que leva a pensar poder tratar-se de um utensílio que não esteve ao uso. As suas dimensões são as seguintes: comprimento total 230 mm; largura maior da folha gume a gume 32 mm; peso 246, 86 g. Esta peça denota uma apurada técnica e cuidada fundição em molde bivalve (Figura 6). Representa, na sequência tipológica das lanças da Idade do Bronze, uma progressiva eficiência do encabamento e utilidade, dado que a peça com alvado apresenta parte oca, levando à redução da quantidade de metal e ao aperfeiçoamento do tipo de encaixe.

Ponta de Lança
Figura 4: Peça depois de limpa

Não dispomos, até ao momento, de análises da composição elementar do metal em presença, de modo a atestarmos que estamos perante um artefacto de bronze, ou seja de uma liga binária de cobre e estanho (elementos maioritários). Porém, este artefacto, visto à lupa binocular, mostra um perfeito estado de conservação da peça, podendo corroborar a ideia de que estamos perante uma peça importada. De facto, o bronze ibérico costumava ter chumbo na composição, daí o aspecto típico das peças corroídas com pontuações brancas de carbonato básico de chumbo.

Figura 5
Figura 5: Desenho da Ponta de Lança

Considerações: Tipologia, cronologia e integração cultural.

Esta ponta de lança, fundida em bronze, de patine verde escura, é parte de uma arma de haste ofensiva, usada quer no ataque directo corpo a corpo, quer no ataque indirecto, quando lançada de arremesso, com o inimigo à vista. Este achado procedente de um lugar aquoso parece enquadrar-se, dentro da tipologia das lanças do Bronze Final português, no tipo Baiões, apontado para afinidades com o mundo europeu e atlântico. Esta tipologia está bem representada em Portugal dado ser o que apresenta o maior número de peças recolhidas até ao momento, estando, pelo contrário, escassamente representada em Espanha, para só reaparecer no sudoeste francês. De facto, as pontas de lança só se tornam verdadeiramente abundantes no Bronze Final e podem reflectir um acréscimo de situações de conflito. Serviriam estas armas, juntamente com as jóias de ouro, para conferir e demonstrar o elevado estatuto dos seus possuidores? É admissível que remonte ao período entre o final do II milénio e o início do I milénio a.C. O presente achado possui as características de um depósito de esconderijo ou de uma deposição ritual? A sua localização sugere uma relação directa com a água e aproveita a cenografia natural da galeria após o estreito corredor da entrada da cavidade. É crível que esteja relacionada com o contexto das estruturas de muros que se encontram a escassos 100 e 150 metros a montante do local deste achado . O número de achados precedentes de lugares aquosos parece aumentar entre o período do Bronze Médio para o Bronze Final, explicando-se tal fenómeno pelo desenvolvimento da prática na Europa de ofertas a divindades aquáticas. É interessante a situação geográfica deste achado, objecto de muita valia, como eram, na época, os de bronze, num local junto do corredor de circulação norte sul do Maciço Calcário Estremenho, bordejado pela linha de cumes onde pontificam, para o controlo visual do território, os Castros da Serra de Alvaiázere, de Conímbriga, de Trás de Figueiró e do Tombadouro, todos eles com ocupações do Bronze Final. Relativamente próximo estão referenciados locais de achados isolados de armas, utensílios, adornos e baixela cerâmica em Conímbriga (Condeixa), Coles Samuel (Soure), Vendas da Cumieira, Melhorado e Tombadouro (Penela) e Alvaiázere, do mesmo período, os quais são considerados dentro do quadro das relações económicas atlântico-mediterrânicas que caracterizaram o final da Idade do Bronze, daí resultando um cosmopolita encontro de culturas. O aparecimento desta lança, numa anfractuosidade com outros despojos, volta a chamar a atenção de que a zona terá tido ocupação proto-histórica, sendo que a sua averiguação e interesse cabe no âmbito de um projecto de investigação e de cooperação entre aqueles que estão de facto verdadeiramente empenhados na salvaguarda do valor cultural e natural deste lugar.

Desenho do molde da Ponta de Lança
Figura 6: Desenho do molde da Ponta de Lança
Logos
CIES NEC GPS SAGA
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s