O Abismo de Sicó

GPS – Grupo Protecção Sicó
NEC – Núcleo de Espeleologia de Condeixa

 LOCALIZAÇÃO
O algar Abismo de Sicó situa-se na Freguesia e Concelho de Pombal, Distrito de Leiria, na parte meridional do Maciço Condeixa-Sicó. Esta área, também designada por Serra do Sicó, tem o seu ponto mais elevado no vértice geodésico com o mesmo nome, a 553 m de altitude. A cavidade está localizada à cota de 488 m, a cerca de 850 m a WNW, em plena vertente da serra (Figura 1). Trata-se do maior algar descoberto até à data neste maciço, apresentando 107 m de profundidade, e incluindo também a maior vertical directa conhecida, com cerca de 85 m (Figura 2).

Figura 1
Figura 1 – Implantação do Abismo de Sicó
(Carta Militar de Portugal IGEOE – Folha n.º 274 – Pombal esc.1/25000).
Figura 2
Figura 2 – Topografia do Abismo de Sicó

As Serras Calcárias de Condeixa-Sicó-Alvaiázere correspondem a um conjunto de relevos calcários, calcomargosos e calcodolomíticos que, na Orla mesocenozóica ocidental portuguesa, se distribuem entre os paralelos de Condeixa e Alvaiázere. Ainda que, no seu todo, não constitua uma verdadeira entidade como maciço calcário, a tectónica e a erosão diferencial colocam este conjunto orográfico, de pouco mais de 400 km2, num posição geral de soerguimento face às áreas encaixantes, a Este e a Oeste, mas também, e ainda que de forma mais subtil, para Norte e para Sul. Na dependência das litologias aflorantes é possível distinguir no seu interior diferentes unidades geomorfológicas, sendo a principal (em extensão, desenvolvimento altimétrico e importância no funcionamento cársico) o conjunto apelidado “Serras e Planaltos Calcários” (CUNHA, 1990) e que se associa ao afloramento dos calcários mais “puros” e carsificáveis do Jurássico Médio. Para esta unidade, o desenho da rede de fracturação e, sobretudo, o jogo estrutural ao longo dos tempos jurássicos e pós-jurássicos, permitem-nos distinguir hoje na paisagem regional duas sub-unidades que, de certa forma, correspondem a dois pequenos maciços com funcionamento independente. Assim, separados por uma complexa zona de fracturação e dobramento, que se relaciona com o grande acidente tardi-hercínico de Lousã-Pombal-Nazaré, distinguimos o Maciço de Condeixa-Sicó (a NW) e o estreito Maciço de Castelo do Sobral-Alvaiázere (a SE) (NEVES, et al., 2003). A Serra do Sicó corresponde a um conjunto de unidades jurássicas, essencialmente do Jurássico Médio e Superior, dispostas de forma grosseiramente monoclinal com pendor para SW. A estrutura encontra-se ainda perturbada por dobramentos cilíndricos de grande raio e por intensa fracturação, cujas direcções principais são facilmente reconhecidas pelo próprio desenvolvimento topográfico (CUNHA & SOARES, 1987). Assim, a configuração dos blocos que compõem o relevo actual realça a orientação NW-SE como direcção principal de fracturação no maciço, aspecto particularmente evidente na escarpa de falha que constitui a vertente NE da Serra do Sicó. Reconhecem-se ainda algumas importantes falhas de direcção N-S, principalmente na bordadura W da serra nas áreas de Redinha e Monte de Vérigo (MANUPPELLA et al., 1978). Por último notam-se ainda falhas de importância secundária de orientação NE-SW, que cortam de forma mais nítida as unidades do Jurássico Superior e que estarão relacionadas com o grande acidente Lousã-Pombal-Nazaré de direcção semelhante. O algar Abismo de Sicó desenvolve-se na espessa série de calcários puros e compactos que caracterizam os andares centrais do Jurássico Médio (Bajociano-Batoniano) (Figura 3). Responsável pelas principais elevações topográficas e, grosso modo, por toda a área soerguida que compõe o Maciço Condeixa-Sicó, este conjunto de rochas, designado por Formação dos Calcários de Sicó (MACHADO & MANUPPELLA, 1998; AZERÊDO et al., 2003), apresenta como características principais o fraco teor argiloso e uma elevada permeabilidade secundária (circulação das águas em diaclases e juntas de estratificação). Estas características, muito favoráveis à espeleogénese, justificam a presença nestas unidades de quase toda a gama de formas cársicas, superficiais e de profundidade, existentes na região.

Figura 3
Figura 3 – Corte W-E, passando pelos VG de Ouro e Sicó,
com a implantação do Abismo de Sicó (adaptado de Cunha, 1990).

CRONOLOGIA DAS EXPLORAÇÕES

A cavidade foi identificada no dia 3 de Abril de 2005, durante os trabalhos de “Prospecção de ocorrências cársicas na área dos Parques Eólicos da Serra do Sicó”, coordenado pelo GPS e financiado pela empresa EESS – Empreendimentos Eólicos da Serra do Sicó, SA. Após a desobstrução da abertura (Figura 4), com uma rápida e simples remoção de pedras, verificou-se a profundidade do poço de entrada por sondagem, recorrendo ao lançamento de uma pedra, e constatou-se que teria mais de 60 m. Na primeira exploração a descida atingiu cerca de 40 m de profundidade, no limite daquilo que o equipamento disponível permitiu. No fim-de-semana seguinte, uma equipa de espeleólogos do GPS e do NEC realizou a descida integral deste poço, estimando o seu desenvolvimento em cerca de 80 m e a profundidade total do algar em cerca de 90 m (Figura 5). No dia 11 de Junho de 2005, durante as actividades da 4.ª Festa da Espeleo, uma equipa de espeleólogos do GPS, do NEC e da AESDA (Associação de Estudos Subterrâneos e Defesa do Ambiente), realizou a topografia da cavidade e forçou a passagem num pequeno poço, estreito e bastante concrecionado, até então o terminus da cavidade. É desobstruída depois uma pequena passagem que dá acesso a um novo poço, estimado em 15 m. No dia 3 de Julho de 2005, uma equipa de espeleólogos do GPS e do NEC regressa à cavidade para concluir a desobstrução da referida passagem e completar a exploração e topografia do novo poço. Nesse dia, pela primeira vez os espeleólogos do GPS e do NEC ultrapassam os 100 m de profundidade no Maciço de Condeixa-Sicó-Alvaiázere.

DESCRIÇÃO DA CAVIDADE

Estamos perante um típico algar de infiltração, com um poço inicial grosseiramente elíptico, de 85 m de desenvolvimento e com uma secção muito constante de 1,5 m. A progressão no seu interior é relativamente perigosa, em virtude da caducidade das suas paredes, frágeis ao mínimo toque. É penosa a permanência no poço de entrada devido à estreita secção, particularmente em períodos chuvosos. Aos 7 m de profundidade surge uma primeira sala com 10 m de comprimento, bastante concrecionada (Figuras 6 e 7). Aqui foi observado um pseudo-escorpião, que infelizmente não foi possível identificar a espécie, mas deverá ser uma das duas conhecidas na zona: Roncocreagris cavernicola (Vachon) ou Roncocreagris blothroides (Beier). Aos 75 m de profundidade, a presença de grandes blocos caídos das paredes do poço forma uma plataforma plana que quase impede a progressão. A passagem apresenta aproximadamente 0,75×0,5 m e dá acesso a uma sala com 10x8x2,5 m, base do poço de entrada (P85). No extremo S da sala, após uma rampa em manto estalagmítico, existe um poço com 6 m, bastante concrecionado, que dá acesso ao poço final de 16 m de profundidade, cuja base se apresenta bastante entulhada e com algumas hipóteses de progressão.

Figura 6
Figura 6 – Pormenor das concreções na 1ª sala

CONCLUSÕES

Este algar exibe as maiores dimensões descobertas e estudadas até à data no Maciço de Condeixa-Sicó-Alvaiázere. Apresenta também o maior poço (P85), uma das maiores verticais absolutas de Portugal (Thomas, C., 1986; Espeleo Divulgação N.º 5, 1986; Espeleo Divulgação N.º 6, 2005).

Em termos de espeleometria do maciço, as cavidades mais profundas estão distribuídas no sector Condeixa-Sicó. Estas, enumeradas de Norte para Sul, são as seguintes: Algar das Quintas (-75m), Algar da Terra Cimeira (-68m), Algar da Pena Só (-73m), Abismo de Sicó (-107m) e Algar do Sancho (-85m).

Figura 7
Figura 7 – Vista geral do poço de entrada P85

Bibliografia

Azerêdo, A. C., Duarte, Henriques, M. H. & Manuppella, G. (2003) – “Da dinâmica continental no Triássico aos mares do Jurássico Inferior e Médio”. Cadernos de Geologia de Portugal, IGM, Lisboa, 43 p. Bélles, X. (1987) – “Fauna Cavernícola i Intersticial de la Península Ibérica i les Illes Balears” Consell superior d’investigacions científiques. Mallorca. Cunha, L. (1990) – “As Serras Calcárias de Condeixa-Sicó-Alvaiázere; Estudo de Geomorfologia”, INIC, Col. Geografia Física, 1, Coimbra, 329 p. Cunha, L. & Soares, A. F. (1987) – “A carsificação no Maciço de Sicó. Principais fases de evolução”. Cadernos de Geografia, Coimbra, 6, pp. 119-137. Espeleo Divulgação N.º 5 (1986), Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro. Espeleo Divulgação N.º 6 (2005), Núcleo de Espeleologia da Associação Académica da Universidade de Aveiro. GPS (2005) – “Relatório da prospecção de ocorrências cársicas na área dos Parques Eólicos da Serra do Sicó” (Grupo Protecção Sicó / Prosistemas), 167p. Machado, S. & Manuppella, G. (1998) – “Contribuição para o conhecimento da Geologia da região de Ansião-Sicó-Pombal”. V Congresso Nacional de Geologia. Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 84(1), A67-A70. Manuppella, G., Zbyszewski, G. & Veiga Ferreira, O. (1978) – Carta geológica de Portugal, na escala 1/50 000. Notícia explicativa da folha 23-A (Pombal), Serv. Geol. Portugal, Lisboa, 62p. Neves, J., Soares, M., Redinha, Nuno, Medeiros, S. e Cunha, L. (2003) – “O Sistema Espeleológico do Dueça”. Leiria, Actas do IV Congresso Nacional de Espeleologia (NEL/FPE). Thomas, C. (1986) – “Grottes et Algares du Portugal”, Lisboa.

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